Eduardo Recife

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Cartaz com técnica de colagem criado por Eduardo Recife em 2013 para o encontro de tipografia TPC10, comemorando os 10 anos do projeto Tipocracia.
Eduardo Recife (Nascido em 1980, em Belo Horizonte, MG, Brasil[1]) é ilustrador, designer gráfico e type designer. No final dos anos 90 criou o site Misprinted Type, onde exibe colagens, ilustrações e distribui fontes digitais de sua autoria. Seu trabalho é uma combinação poderosa de estética vintage com linguagem grunge. Reconhecido internacionalmente pelas suas colagens expressivas, Eduardo passou a trabalhar como ilustrador freelancer de forma integral a partir de 2002. Já desenvolveu trabalhos para The New York Times, Nike, YouTube, FIFA e muitos outros. Simultaneamente, seu trabalho com tipografia se tornou referência e Misprinted Type, além de pioneira, veio a ser uma das mais bem sucedidas type foundries brasileiras. Suas fontes gratuitas e comerciais seguem uma linha bem experimental e exibem uma “sujeira digital pós-punk”,[2] estilo que acompanha o seu trabalho como ilustrador.

Juventude e os primeiros passos

Eduardo reconheceu seu interesse pelas artes bem cedo. Quando criança já se mostrava muito interessado em desenhar e, segundo ele, seus cadernos escolares continham mais desenhos que anotações.[3] Por volta dos seus 15 anos de idade se envolveu rapidamente com graffiti e pixação. Com isso teve pela arte de rua o seu primeiro contato com a tipografia e se encantou.[4]

Cogitou estudar Belas Artes ou Publicidade e Propaganda, mas no fim se inscreveu no então recém criado curso de Design Gráfico da Fumec. Na segunda metade dos anos 90 teve oportunidade de conhecer algumas pessoas que trabalhavam com criação de fontes digitais. Ele se identificou bastante e em meio a influência do cenário grunge da época começou a desenvolver experimentações com tipografia e colagens. Eduardo era dedicado e produziu muitos trabalhos pessoais, se aprimorando bastante por tentativa e erro. Em 1997 começou a criar desenhos de alfabetos e produzir fontes para uso pessoal.

Segundo o próprio artista, ele percebeu que seria uma boa ideia distribuir essas fontes experimentais na internet para que outros pudessem usá-las. Após um período de tempo com esse material em um portal gratuito de downloads, Eduardo recebeu de um dos proprietários a sugestão de criar seu próprio site. Seu trabalho era muito elogiado e já contava com muitos downloads. Assim, criou o site Misprinted Type, batizado desta forma por causa do seu primeiro projeto de tipos.[5]

Nesse mesmo período, começou a desenvolver colagens manuais, texturas, pintura e arte digital. Que também foram expostas no site em uma seção especial para esse tipo de projeto.

Misprinted Type

Fontes de Eduardo Recife selecionadas para o catálogo "Fontes digitais brasileiras: de 1989 a 2001".

A primeira versão do site Misprinted Type foi lançada em 1998. Inicialmente era o local onde Eduardo Recife distribuía gratuitamente as fontes que estava criando na época. Além disso, passou a disponibilizar brushes para photoshop, texturas e vetores gratuitos. Após algum tempo, começou a exibir também suas experimentações com colagens e arte digital. Esse site não era seu portfolio profissional, mas sim um lugar para seus projetos pessoais.

Com uma quantidade de visitantes cada vez maior, Eduardo se tornou uma referência internacional em tipografia grunge, arte digital e colagens. Ele começou a ser procurado profissionalmente por causa do seu trabalho autoral de ilustração, ao mesmo tempo em que iniciava uma produção comercial de fontes digitais.

Atualmente o site exibe trabalhos pessoais e comerciais, tem loja virtual com itens do autor, downloads gratuitos e links para compra de fontes.

Tipografia

O envolvimento de Eduardo Recife na tipografia se tornou forte no final dos anos 90. Nesse período, ele teve contato com os tipos grunges e as possibilidades digitais na manipulação das formas tipográficas. A estética grunge é caracterizada pela incorporação da sujeira, do ruído ou da distorção nas formas. Em alguns casos adota um caráter expressionista, mantendo resquícios estéticos que indicam a ferramenta utilizada na sua criação e incorporam experiências emocionais do autor nas suas formas.[6]

Para Recife, a escrita não é apenas uma maneira de registrar informações. O desenho das letras e suas formas comunicam de maneira não verbal um conjunto de ideias e sensações. Segundo ele, os primeiros tipos que fazia costumavam surgir manualmente, junto com os trabalhos de colagem. Com esse processo, seus projetos ganharam uma forma muito experimental. As imperfeições e os acidentes são bem-vindos no seu método de trabalho. Peculiaridades que muitas vezes inspiram um desenrolar diferente do planejado e que se mantém no design final dos seus tipos.

Para disponibilizar suas fontes gratuitas, Eduardo criou em 1998 o site Misprinted Type, que se tornou sua type foundry. Entre as primeiras fontes distribuídas estão: Astonished, Broken 15, Dirty Ego, Nail Scratch, Print Error e Rochester (lançadas em 2001).[7]

Mesmo sem investir em divulgação, suas colagens inusitadas e tipos expressivos ganharam a atenção de artistas, designers e publicitários. O número de acessos diários ao seu site aumentava cada vez mais. Em 2002, após uma multa que recebeu do seu servidor por tráfego de dados excedentes (porque muitos usuários estavam baixando suas fontes), seguiu o conselho de Brian J. Bonislawsky, do Astigmatic One Eye, e iniciou uma produção comercial de fontes.

Com o passar do tempo crescia o interesse profissional pelo seu estilo de trabalho. Assim, o que surgiu como experimentação pessoal começou a produzir um retorno comercial. Além das fontes de licença freeware, Eduardo Recife vende suas fontes comerciais pelo portal MyFonts. Sua família tipográfica Great Circus, que combina o estilo decorativo circense com a escrita cursiva, se posicionou no topo da lista de best sellers durante todo o ano de 2004. Ela ainda foi selecionada pela equipe do portal como a melhor família grunge publicada naquele ano.[8] Recentemente Eduardo mostrou seu crescente interesse por caligrafia lançando duas famílias tipográficas de traços bem delicados, Mercy e King Bloser.

Atualmente Eduardo Recife é reconhecido como um dos pioneiros na criação de type foundries latino-americanas. E Misprinted Type está entre as mais importantes e expressivas type foundries do Brasil. [9]

Produção tipográfica (até Abril de 2014)

Freeware


  • Top Secret
  • Dirty Ego
  • Broken15
  • Max Rhodes
  • Nasty
  • Porcelain
  • Shortcut
  • Misproject
  • Diesel
  • Downcome
  • Disgusting Behavior
  • Horse Puke
  • Selfish
  • Moksha
  • Pastelaria
  • Print Error
  • Nail Scratch
  • Memory Lapses
  • Astonished

Comercial


King Bloser

King Bloser, tipo caligráfico lançado em Abril de 2014.

King Bloser é uma família tipográfica inspirada nos grandes mestres da caligrafia. O nome é uma homenagem a E. W. Bloser, calígrafo do século 18. Possui uma forte inclinação do eixo no sentido da escrita, além de possuir recursos OpenType, contendo swashes, caracteres alternativos, ligaturas e uma grande variedade de minúsculas inicias e terminais. Também acompanha a família uma versão X contendo ornamentos gráficos que pode ser utilizada junto com as demais. E para completar, Bloser Serif e Bloser Serif Bold. Dois tipos small caps, com caracteres alternativos, permitindo uma combinação interessante com o estilo cursivo.

Mercy

Mercy, lançada em Outubro de 2013.

Mercy é uma fonte caligráfica ornamental, inspirada em um estilo de escrita feminina conhecido como “Ladie’s Hand Style”. Suas ascendentes e descendentes são longas e sugerem elegância. A fonte não se restringe à simplicidade do estilo original e tem vários recursos OpenType. Swashes, caracteres alternativos, números alternativos e ornamentos.

Revanche

Tipo stencil Revanche, 2013

Revanche é uma fonte stencil all caps. Ela se apresenta em 2 estilos: Revanche One e Revanche two (alternate), assim ela possui 4 variações de maiúsculas, sendo difícil repetir o mesmo desenho de uma mesma letra em uma palavra. Uma versão dingbat, Revanche X, com um conjunto de manchas, sujeiras e distorções pode ser combinada com os demais tipos da família ampliando seu efeito grunge.

Grandpa's Typewriter

Granpa's typewriter, tipo inspirado nas máquinas de escrever Olivetti. 2013.

Grandpa's Typewriter é inspirada em uma antiga máquina de escrever Olivetti. Ela possui vários recursos que simulam a máquina real: versão regular, com aumento de pressão, levemente distorcida, dígito duplicado na mesma posição e uma versão X, que é uma compilação de vários erros possíveis, testes e manchas.

Handmade

Handmade. Seu design foi criado a partir de lettering manual. 2008.

Handmade é baseado em um lettering manual feito pelo próprio Eduardo Recife, inspirado pelos tipos ornamentais e vernaculares. É a combinação da personalidade da escrita popular em faixas e letreiros com a elegância dos tipos ornamentais vintage. Cada letra possui seu próprio estilo e a fonte vem com 2 variações de maiúsculas. Ela é comercializada com um pacote de vetores contendo 16 ornamentos feitos a mão.

Carimbo

Tipo versátil que mantém as falhas do processo de impressão dos carimbos. 2003.

Carimbo é uma tipo versátil, utilizado na maior parte dos trabalhos de Eduardo Recife. Como o próprio nome indica, utiliza a estética da reprodução pela pressão de carimbos, mas sem distorcer demais a forma das letras. Possui 2 variações de maiúsculas.

Anti-romantic

AntiRomantic tem seu estilo grunge inspirado nos tipos de madeira do séc. 19. 2008.

Anti-Romantic é uma família tipográfica romântica, circense, grunge e ornamental. É inspirada nos tipos de madeira utilizados no século 19 e vem com 4 estilos: Anti-Romantic Regular, Small Caps, Displaced e X.

LeKing

LeKing é uma colagem de vários estilos ornamentais de época.2008

LeKing é uma colagem de vários estilos ornamentais dos últimos séculos. Cada caracter é uma colagem de partes de diferentes tipos de letras. Possui 2 variações de maiúsculas. E além disso, o pacote da LeKing é acompanhado de 24 ornamentos vetoriais.

Nars

Nars. Um tipo grunge cursivo.2003.

Nars é um tipo grunge cursivo. Sujo, elegante e subversivo. A família tipográfica vem com 4 estilos: Nars 1 (regular), 2 (bold), 3 (clean) e X (swashes e sujeiras).

Mosh

Mosh é uma caligrafia grunge com variação na espessura dos seus traços. 2004.

Mosh é um tipo grunge cursivo que explora a diferença de largura entre os traços e swashes. A família tipográfica vem com 4 fontes: Mosh 1 (regular), Mosh 2 (Alternate), Mosh 3 (Light) e Mosh X, com alguns swashes e sujeiras que podem ser incorporadas aos caracteres.

Toscography

Toscography, um tipo com inspiração vernacular. 2008.

Toscography é inspirada nas placas populares e toscas pintadas pelo Brasil. É espontânea, orgânica e possui uma leve textura nos seus caracteres, como se estivesse começando a deteriorar-se. Um pacote de vetores, manchas e marcas de pincéis acompanham a fonte.

Monster Days

Monster Days é a combinação do estilo cursivo com a estética grunge. 2008.

Monster Days é um tipo cursivo grunge com swashes e camadas. Ideal para comunicação de bandas e linguagem underground. Sua família possui 2 estilos: regular e alternate. 16 ornamentos vetoriais acompanham a família tipográfica.

Great Circus

Great Circus, um tipo de estilo ornamental circense. 2004.

Great Circus é uma família de tipos cursivo combinada com o estilo ornamental circense. Segundo o autor, funciona perfeitamente para representar um Freak Show subversivo. Vem com 3 fontes: Great Circus Clean, Dirty e X. É possível customizar as palavras incorporando elementos da versão X.

Kyoto

Kyoto, um tipo grotesco com interferências. 2008.

Kyoto é um tipo grunge de aspecto bem sujo. Bom para títulos, ele se apresenta com 2 estilos para maiúsculas e uma versão X, cheia de manchas, ranhuras e outros elementos que deixam a aparência das letras ainda mais suja.

Trashold

Trashold é uma combinação de estilo grunge com acabamentos rounded e peso bold . 2004.

Trashold é um tipo grunge, round e bold. Funciona bem em tamanhos grandes e pequenos, mantendo a leiturabilidade. Ideal para títulos, logos e pode ser utilizado em colagens e sobre fotografias. Também é acompanhado de uma versão X cheia de manchas, carimbos e arranhões.

Colagens

Para Eduardo Recife, a busca por um estilo próprio era mais importante do que se adequar ao mercado. Ele apostou na experimentação para chegar onde queria. E, atualmente, pode-se dizer que ele se posiciona em uma linha tênue entre a arte e o design. Segundo o próprio Recife, ele se afastou um pouco do design e ultimamente dedica muito mais do seu tempo ao trabalho de ilustração.

Eduardo trabalha com lápis, tinta, computador, fotografia e colagens. Suas ilustrações possuem uma atmosfera vintage. Para ele, as fotos, os gráficos e as ilustrações antigas são muito mais belas que as atuais. Com cores mais atrativas e mais poéticas. Por isso, passou a guardar velhas revistas para utilizar suas imagens em colagens. Além dessa influência retrô, seu trabalho segue uma linha praticamente surrealista combinada com a influência do grunge dos anos 90.[10]

Na maioria das vezes suas colagens são feitas num processo que mistura a forma artesanal com o uso do computador. Muitos dos elementos que usa em suas composições são feitos pelo próprio artista: texturas, raspagens, rabiscos, manchas e mais. Trabalhos feitos puramente no computador passam para ele uma sensação fria e mecanizada.[11]

Clientes [12]

Absolute • Adobe • Adrenalin • American Express • American Greetings • Analog • Burton Snowboards • CNT • CNX • Delaneau • Entertainment Weekly • ENI • Etapes • Fast Magazine • FIFA • F/Nazca • Fine Living • Foreign Policy • Global Brief • Graniph • HBO • Houghton Mifflin Harcourt • How Magazine • International Herald Tribune • Mayhen & Press • Nike • Panic! At the Disco • Paramount Pictures • Raygun • Rip Curl • Showtime • TCM • The Guardian • The New York Times • The Stranger • Wieden + Kennedy • Warner Brothers • Volkswagen.

Exposições[13]

  • All That Remains - A Survey of Contemporary Collage and Culture: Ugly Art Room (US) 2012
  • Do Outro Lado: Collective Show: Brazilian Embassy (Japan) 2010
  • August: Collective Show: Guerrero Galley (US) 2010
  • !a Mostra 3M de Arte Digital: Centro Histórico Mckenzie (Brazil) 2010
  • Retroism: Collective Exhibition: Retrospect Gallery – Australia (2010)
  • This is the End of the World as We Know it: Mohs – Denmark (2019)
  • Brazilian Illustraion: Collective Exhibition: Gallery 23 – (UK) (2009)
  • Design Brasileiro Hoje: Collective Exhibition: MAM – Sào Paulo (Brazil) 2009
  • Indizível (ROJO): Collective Exhibition: Galeria Pop (Brazil) 2009
  • Sem Titulo: Collective Exhibition: Mamacadela (Brazil) 2008
  • Art Trek 3: Collective Exhibition: Galerie Mekanik (Belgium) 2007
  • Junta Show: Collective Exhibition: Scion Gallery (USA) 2006
  • T.M.B.G Show: Collective Exhibition: Garde-Rail Gallery (USA) 2005
  • 44 Boards: Collective Exihition: Mahan Gallery (USA) 2005
  • The Drama A-Z: New Image Art Galery (USA) 2005
  • The Drama A-Z: Ada Gallery (USA) 2005
  • The Drama A-Z: Lump Gallery (USA) 2005
  • Next Festival: (Lithuania) 2005
  • 55dsl & FaestHetic: Contribution for show/book. (USA) 2004
  • Entre a Casa e o Jardim: Collective Exhibition (Brazil) 2004
  • Expo Arte Digital: Collective exhibition (Brazil) 2004
  • Centro + Media: Collective Exhibition (Mexico) 2004

Veja também

Referências

  1. http://www.lumas.com/artist/eduardo_recife/
  2. RECIFE, Eduardo. Great Circus. Tupigrafia, nº 6, p.45, 2005
  3. Backup online salvo de www.lumeneclipse.com/gallery/14/recife/index.html (janeiro de 2007) http://archive.today/RuW8
  4. Entrevista realizada em Maio de 2010 http://pocko-people.blogspot.com.br/2010/05/interview-with-eduardo-recife.html
  5. Entrevista realizada para o site Abduzeedo em Outubro de 2008 http://abduzeedo.com/interview-eduardo-recife-misprintedtype
  6. GOMES, Ricardo Esteves.O design brasileiro de tipos digitais: a configuração de um campo profissional. São Paulo: Blucher, 2010.
  7. FARIAS, Priscila. PIQUEIRA, Gustavo. Fontes digitais brasileiras: de 1989 a 2001. São Paulo: Edições Rosari, 2003
  8. RECIFE, Eduardo. Great Circus. Tupigrafia, nº 6, p.45, 2005
  9. CARPINERO, Carlos. COSGAYA, Pablo. COZZI, Fernanda. LAMAS, María Victoria. MONSALVE, Mariela. ROMERO, Marcela. SCAGLIONE, José. YEDRASIAK, Carolina. Latinoamérica: Nuevos horizontes tipográficos. Cadernos de Tipografia e Design, nº 16, p.20, Maio 2010
  10. Reprodução da entrevista realizada para o site Not-Paper http://janainasdesign.wordpress.com/2012/11/15/eduardo-recife/
  11. Artigo sobre Eduardo Recife por Lorenzza Fernandes. http://www.typezine.eu/pt/artigo/eduardo-recife/designers/4
  12. Lista de clientes http://www.misprintedtype.com/contact/
  13. Participacão em exposições http://www.misprintedtype.com/contact/

Links externos